
O QUE CORRE SOB A TERRA
Pensar a amefricanidade, como propõe Lélia Gonzalez, é entender o corpo como território de memória. São camadas que sobrevivem no gesto, no canto, na reza; modos de viver que atravessam o tempo e preservam mundos inteiros dentro das práticas do cotidiano. Cada corpo, ao lembrar, reescreve histórias que nunca deixaram de existir, ainda que constantemente silenciadas.
Nesse mesmo horizonte, Silvia Rivera Cusicanqui nos provoca a reconhecer que a descolonização começa pela nossa casa, pelos pequenos rituais, pelas práticas que sustentam a vida comunitária. É no detalhe, na repetição, no modo de fazer, que se sustentam a vitalidade de comunidades que, apesar da violência histórica, seguem reinventando mundos possíveis.
Do diálogo dessas duas perspectivas nasce o eixo desta mostra: olhar para aquilo que corre do subterrâneo. Esses fluxos que correm como rios sob a terra: persistentes, indomáveis, transmitidos de corpo a corpo, longe das narrativas lineares, longe das cronologias oficiais. Neles, as memórias não se fixam: elas se deslocam, se transformam, se infiltram. Criam modos de viver e tecnologias do afeto, cuidado e permanência.
de 29.11.25 à 07.02.26





